Disciplina

Sempre tive o sonho de ser disciplinado. Pra mim, ser disciplinado significa ater-se com resolução a um plano de vida cuidadosamente planejado. Tenho metas, quero alcançá-las, e isso depende da mobilização orquestrada de cada uma de minhas células. Quais seriam os ingredientes de uma rotina ideal pra mim? Vejamos:

Acordar cedo. Há um silêncio maravilhoso nas primeiras horas da manhã, muito útil para leitura das grandes obras e reflexão sobre os mais profundos mistérios. É ideal também para comunicação com D-s, os cristãos chamam isso de comunhão. Essa interação forma caráter, isto é, o refino na noção do que é o correto e a capacidade de permanecer firme a isso ainda que entre raios e trovões. Nosso país seria melhor com líderes de caráter. Embora seja doloroso, acho que concordo com as palavras de um velho amigo. Infelizmente, em média temos os líderes que merecemos. Mas não tenho dúvidas que podemos mudar esse quadro, começa por nós.

Malhar. Usei esse verbo porque essa é minha atual atividade física (não, não merece ser chamada de esporte). Cuidar do corpo é bom, não só para a estética. Sei que isso fará muito mais sentido à medida que a idade avançar.

Alimentação descente. Odeio sair feito louco sem fornecer ao meu corpo o que ele precisa, como vingança ele devora tudo que ganhei à custo de muito suor na academia.

Trabalho. O trabalho é talvez, não, é muito possivelmente a maior fonte de felicidade que nós mortais podemos experimentar. Mesmo D-s ficou feliz da vida apoś pôr em ordem o caos desse planeta. Não, realmente não acho que Ele ficou esperando as coisas darem certo ao acaso, assim não tem graça. Como quero chegar na universidade e me concentrar de corpo e alma nos assuntos do meu doutorado! É uma oportunidade tão única para eu ficar me distraindo na internet. Quero conseguir deixar a navegação livre para a noite. É o momento de honrar a profissão, ler artigos, livros, praticar a pesquisa. Ter metas de leitura semanal me parece uma boa ideia (agora sem acento).

Tempo livre. Minha opinião é somos basicamente o que fazemos tempo livre. Quantos planos tenho para esses espaços! Acredito que educação não é exclusivo da universidade. Educação é a ideia de Homem, e isso não pode ser condensado em apenas uma área do conhecimento. Por isso, busco aprender de outros gigantes, da filosofia, literatura, psicologia, artes, história... Alguém escreveu um livro chamado A vida começa aos quarenta, a princípio achei revoltante o título, mas hoje faz muito sentido pra mim. Ele queria dizer que aos quarenta anos um homem já pode ter atingido aquela educação básica que o torna hábil para admirar de modo mais consciente o cosmo fora dele. Fomos projetados para uma eternidade, não poderíamos esperar menos.


Há excelentes razões para ser disciplinado, mas sempre me pergunto qual a fonte desse auto-controle. Talvez devesse começar pelo inverso: o que destrói meu auto-controle, a capacidade de governar a mim mesmo? Tenho alguns rabiscos, mas ainda quero refinar minhas respostas antes de postá-las. Na minha sociedade, a satisfação imediata dos desejos é a lei. Parece-me ser essa a razão do tédio, da apatia geral. Pode-se conseguir maiores prazeres com maior espera e maior empenho.

Dois tipos de escritor

Faz parte dos meus objetivos de vida desenvolver a habilidade de escrever ao máximo possível. Tendo isso em vista, iniciei a leitura de Sobre o ofício do escritor, de Arthur Schopenhauer, editora Martins Fontes. Já de início, nas três primeiras linhas do livro, grandes expectativas se acenderam do que estava por vir.


"Antes de tudo, há dois tipos de escritor: os que escrevem por amor do assunto e os que escrevem por escrever." pg.3.


Achei perfeita essa divisão. Mais adiante ele observa:


"Só quem é movido exclusivamente pela causa que lhe interessa escreve o que é digno de ser escrito." pg.4.


Tão logo você percebe que o livro que você está lendo foi escrito por um escritor do segundo tipo, aconselha Schopenhauer, deve-se se "desfazer do livro, pois o tempo é precioso."

Para eu não me esquecer

Um dia, quando Ben Franklin era jovem inexperiente, um "old Quaker Friend" chamou-o de parte e fustigou-o com algumas verdades ferinas, alguma coisa parecida com o seguinte:

"Ben, você é impossível. Suas opiniões possuem sempre uma ofensa qualquer para os que delas diferem. Tornaram-se tão desagradáveis que ninguém as procura. Seus amigos divertem-se mais quando você não está presente. Você conhece tanta coisa que as outras pessoas nada lhe podem dizer. Deste modo, ninguém ousa experimentar, pois o esforço o levará apenas a um trabalho penoso e desagradável. Por isso, você não tem probabilidade de conhecer nada mais do que já conhece agora, o que, diga-se de passagem, ainda é bem pouco".

Uma das coisas mais notáveis que conheço sobre Ben Franklin foi o modo pelo qual ele recebeu esta sábia repreensão. Foi bastante grande e bastante sábio para compreender que tudo aquilo era verdade, vendo que estava sendo levado para um fracasso e para um desastre social. Assim, transformou-se por completo. -- Dale Carnegie, Como fazer amigos e influenciar pessoas.

O Beija-flor

Hoje vi um beija-flor. Subitamente um enorme senso de admiração -- quase inveja -- tomou conta de mim. A graciosidade e precisão de seus movimentos me lembraram a Primavera de Vivaldi. Sua estabilidade em vôo fazia um monge budista parecer um inquieto hiperativo. A incrível velocidade de seu bater de asas embaralhavam caprichosamente os fótons de luz, dissolvendo-as no ar, ficando invisível ao radar de meus impotentes olhos. Seu bom gosto é indiscutível, se veste escandalosamente bem. É cavalheiro o suficiente para beijar as mais lindas flores sem lhes causar dando. Inigualável Beija-flor.

Perfeita Felicidade

"A perfeita felicidade dos homens sobre a terra (se ela um dia acontecer) não será uma coisa plana e sólida, como a satisfação dos animais. Será um equilíbrio exato e perigoso; como o equilíbrio de um romance desesperado. O homem precisa ter a medida exata e suficiente de fé em si mesmo para ter aventuras; e ter a medida exata e suficiente de dúvida de de si mesmo para desfrutá-las." G. Chesterton, Ortodoxia, pg.188.

Sobre a Franqueza

Certo dia eu estava preocupado com meu excesso de franqueza. Comecei então a imaginar se por sete dias todos os pensamentos de todas as pessoas fossem audíveis como a voz. O que você acha que ocorreria? Que precauções você tomaria ao sair pela rua, ao tomar um ônibus cheio ou durante uma conversa com conhecidos? Sinceramente, acho que tamanha seria a confusão que faria com que todos quisessem ficar em casa durante esses sete dias, exceto, talvez, os psicólogos e os ladrões de senhas bancárias. (Você acha que em um desses dias o Sarney daria alguma entrevista? Acho que nem pra falar de futebol...)

Os evangelhos dizem que Jesus conhecia os pensamentos das pessoas, nesse sentido talvez fosse assustador ficar perto dele. Não dava pra ser fingido, não dava pra mentir, ele saberia. A coisa era mais complexa, Jesus tinha o costume de revelar abertamente os pensamentos do seus interlocutores durante a conversa. É bem interessante olhar essas cenas. A multidão pergunta "Mestre, quando chegaste aqui?" (do outro lado do mar), a resposta de Jesus? Leia: "A verdade é que vocês estão me procurando, não porque viram os sinais milagrosos, mas porque comeram os pães e ficaram satisfeitos." (João 6:25 e 26, NVI) Acho que Jesus sabia o suficiente de natureza humana para prever a reação às suas palavras, mas ele falou mesmo assim. Fico me perguntando até onde isso é aplicável à mim considerando aquela máxima cristã de "o que Jesus faria em meu lugar?". Tenho medo de minhas conclusões.

Idéia Hiper-ativa

"Com efeito,um dia de amanhã, estando a passear na chácara, pendurou-se-me uma idéia no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volantim, que é possível crer. Eu deixei-me estar a contemplá-la. Súbito deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te." Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas, cap II.

Ainda leio o Machado ...

 
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